sexta-feira, 27 de maio de 2016

Soberba e corrupção

"Em sua presunção o ímpio não busca o Senhor; não há lugar para Deus em nenhum dos seus planos" (Salmos 10:4)

O salmista declara que o ser humano nega a existência de Deus por causa da soberba. O homem não o busca. O seu orgulho o aprisiona. Acha que sabe tudo. Considera-se superior aos outros na sua maneira de ver o Universo e a obra da criação. Não tem humildade para reconhecer suas limitações de criatura. Prefere ser seu próprio Deus, determinar seus valores e fixar seus conceitos morais.

O resultado dessa atitude soberba e atrevida é a corrupção. Ele torna-se perverso. Perversidade é a maximização da maldade. Quando você acha que já conhece toda a maldade humana, o perverso ainda o surpreende. Por quê? Porque ele não conhece limites. Ele impõe suas próprias regras. Decide chamar o bem de mal, e o mal de bem. Coloca os valores de cabeça para baixo.

Quem determina o que é moral ou imoral? A sociedade por voto da maioria? O governo? A igreja? Cada um? Todas essas instituições são mutáveis porque têm como componente principal o ser humano, que hoje é e amanhã não é mais. Mas, por causa de sua temporalidade, a criatura procura algo concreto para apegar-se. No fundo do seu ser, ele anela permanência, e essa permanência só pode ser encontrada em Deus. Mas aí surge o drama do incrédulo. Ele nega a existência de Deus porque inconscientemente acha que Deus é um atentado contra sua liberdade. Ao mesmo tempo, precisa dEle na sua desesperada temporalidade.

A Bíblia é o único livro de valores absolutos; portanto, é o único lugar onde podemos achar valores morais permanentes. Mas o texto de hoje afirma que a soberba não permite ao perverso investigar. Algumas versões dizem: “Não busca a Deus.” Prefere olhar para dentro de si ou, na melhor das hipóteses, para as coisas criadas. O corrupto não busca a Deus e nem percebe que lhe deve prestar contas do que faz às escondidas. Gasta o tempo maquinando a perversidade, mas não há tempo para Deus.

Quanto tempo de seu programa diário você dedica a Deus? Somente Ele é capaz de preencher o vazio de qualquer coração. Somente Deus é capaz de colocar ordem em qualquer vida e trazer esperança onde só existe desespero. Por isso, hoje, antes de começar suas atividades, lembre-se de que “o perverso na sua soberba não investiga; que não há Deus são todas as suas cogitações”.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Eleição divina, a escolha da graça

“Porquanto, Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença.” (Efésios 1:4)

Na igreja protestante há dois segmentos que insistem em perpetuar as diferenças: o Calvinismo e o Arminianismo. O Calvinismo enfatiza a eleição divina; o Arminianismo o livre arbítrio humano. O Calvinismo ensina que Cristo morreu para efetivar nossa salvação; o Arminianismo ensina que Cristo morreu para possibilitar a nossa salvação. Para um arminiano Deus escolhe o homem para a salvação, quando este crê; para um calvinista o homem crê porque foi escolhido. [A virtude é que ambos acreditam que a Salvação é pela graça. O Calvinismo e Arminianismo são como duas trilhas que seguem paralelas. O final de cada uma delas somente Deus conhece.] Vamos, examinar, agora, à luz de Efésios capítulo 1, versículo 4, a doutrina da eleição.

Em primeiro lugar, o autor da eleição. Deus é o autor da eleição e não o homem. Foi Deus quem nos escolheu e não nós a ele. [Foi pela graça que Deus nos escolheu dar a Salvação. “Porquanto, pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus;” (Efésios 2:8)]. Na verdade, jamais poderíamos escolher a Deus. Estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Éramos ímpios, fracos, pecadores e inimigos de Deus. Por isso, a escolha de Deus é incondicional. Deus não nos escolheu por causa dos nossos méritos, mas apesar dos nossos deméritos. Deus não nos escolheu porque éramos bons, mas apesar de sermos maus. Deus não nos escolheu porque cremos em Cristo; cremos em Cristo porque Deus nos escolheu “...E todos quantos haviam sido escolhidos para a vida eterna creram de coração” (Atos 13.48). A fé não é causa da eleição, mas seu resultado. Deus não nos escolheu porque éramos santos; Deus nos escolheu para sermos santos. A santidade não é causa da eleição, mas sua consequência. Deus não nos escolheu por causa da nossas boas obras; Deus nos escolheu para as boas obras. Somos feitura de Deus, criados em Cristo Jesus para as boas obras.

Em segundo lugar, o tempo da eleição. O apóstolo Paulo diz que Deus nos escolheu antes da fundação do mundo. Não havia em nós qualquer mérito que justificasse essa escolha, uma vez que Deus colocou o seu coração em nós antes de nós colocarmos nosso coração nele. Sua escolha foi livre, soberana, incondicional e cheia de graça. Ele não deixaria de ser Deus pleno e feliz em si mesmo se não tivesse nos escolhido. Mas, ele, por amor, nos amou com amor eterno e nos atraiu para si com cordas de amor. E isso, desde os refolhos da eternidade. Ainda não havia estrelas brilhando no firmamento. Ainda os anjos de Deus não ruflavam suas asas cumprindo as suas ordens. Ainda o sol não havia dado a sua claridade, e Deus já havia nos amado e nos escolhido para a salvação.

Em terceiro lugar, o agente da eleição. O apóstolo Paulo diz que Deus nos escolheu em Cristo. Ele é o amado de Deus, o escolhido do Pai. Nele somos amados. Nele somos eleitos. Nele somos perdoados. Nele somos remidos. Nele somos salvos. Não há salvação fora de Cristo. Não há nenhum outro nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos. Jesus é único caminho para Deus. Ele é o único Mediador entre Deus e os homens. Jesus é a porta do céu. Não há eleição fora de Cristo. Vivemos pela sua morte. Somos purificados do pecado pelo seu sangue. O mesmo Deus que escolheu nos salvar, elegeu também nos salvar por intermédio de Cristo. Ninguém pode ser salvo e ninguém pode confirmar sua vocação e eleição, a menos que se renda a Cristo e o confesse como Salvador e Senhor. Nos rendermos a Cristo e o confessarmos como Salvador é a confirmação da nossa eleição. 

Em quarto lugar, o propósito da eleição. O apóstolo Paulo afirma, categoricamente, que Deus nos escolheu em Cristo, para sermos santos e irrepreensíveis. Se o autor da eleição é Deus, se a causa da eleição é a graça divina, se o agente da eleição é Cristo, o propósito da eleição é a santidade. Deus não nos escolheu para vivermos no pecado; mas para sermos libertos do pecado. Cristo não morreu para que aqueles que permanecem em seus pecados tenham a vida eterna; ele morreu para que todo o que nele crê [como resultado da eleição] seja santo como Deus é santo. Se a santidade não é a causa da eleição, é sua evidência mais eloquente. Ninguém pode afirmar que é um eleito de Deus, se não há evidências de santidade [ou pelo menos busca da santidade] em sua vida. A Palavra de Deus é oportuna em nos exortar: “Portanto, irmãos, esforçai-vos com dedicação cada vez maior, confirmando o chamado e a eleição com que fostes contemplados, pois se agirdes desse modo, jamais abandonareis a fé. ” (2 Pedro 1.10).

[Assim, podemos concluir que a eleição é divina, e esta escolha foi feita pela graça.]

Texto base escrito por Hernandes Dias Lopes, com modificações entre colchetes. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A outra metade

Então o Senhor Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda.” (Gênesis 2:18)

A imagem de Dilma Rousseff durante seu discurso ao deixar o cargo, cercada de colaboradores, boa parte deles mulheres, destoa do governo que tomou posse poucas horas mais tarde. A foto que ilustra a equipe de Michel Temer revela que todos os 21 ministros nomeados pelo presidente são homens, em uma configuração que não era vista no Brasil desde o governo de Ernesto Geisel, nos anos 1970.

A questão da presença de mulheres na política brasileira e o sexismo camuflado por essa ausência não é novidade no país. No entanto, o tema vem sendo levantado com mais frequência por militantes desde a eleição de Dilma Rousseff, antes mesmo do processo de impeachment. “Desde o começo do mandato ou até durante a campanha ela sofreu agressões que um homem não sofreria no lugar dela”, afirma Luise Bello, gerente de conteúdo da ONG Think Olga, uma organização pelo empoderamento feminino por meio da informação.

“A sociedade tem ainda que trabalhar e evoluir para olhar as mulheres como iguais em todos os âmbitos, incluindo a política”, finaliza a representante das Nações Unidas. Mas veja o que Deus Criador dessa criatura tão fenomenal quer nos ensinar por meio da historinha a seguir.

O lugar era, literalmente, paradisíaco: clima agradável, paisagem deslumbrante, ambiente perfeito. O dono, no auge de sua vitalidade, olha para os lados e ali tem tudo o que poderia querer: palmeiras, árvores carregadas de frutas, animais exóticos, aves coloridas, um rio tranquilo, pedras preciosas. No entanto, ele sente um vazio inexplicável. Tudo era bom, mas algo não estava bem. O que estava faltando para ele ser feliz? Alguém com o mesmo padrão intelectual, mental e emocional dele.

Então o Criador põe em ação o clímax do plano. Corpo musculoso, rosto simétrico, pele aveludada, neurônios capazes de fazer mais de 100 trilhões de sinapses perfeitas, número muito superior aos 300 bilhões de estrelas que cintilam na Via Láctea, o primeiro homem se deita e cai num sono profundo. Quando abre os olhos, fica extasiado e, dando expressão a sentimentos mistos de amor e (auto)descoberta, compõe o primeiro poema da humanidade, mais interessado em rimas do pensamento do que de palavras: “Até que enfim! Osso dos meus ossos, carne da minha carne! Seu nome será mulher [ishah], pois foi feita do homem [ish].”

A partir daí, a história da mais linda das criaturas da Terra teve altos e baixos, glórias e vergonhas, aplausos e vaias. Explorada, minimizada e ignorada por muitos, a mulher foi também valorizada, maximizada e notada por outros tantos. Sua trajetória é o gráfico da história da própria humanidade. O que muitos ignoram é que ela não é uma ajudante inferior, mas alguém que apoia e completa. Afinal, a palavra “auxiliadora” (ezer), combinação de duas raízes com o sentido de “resgatar”, “salvar”, “fortalecer”, é sempre usada no Antigo Testamento num contexto de uma ajuda poderosa e vital. De seus 21 usos, o termo se refere duas vezes à primeira mulher, três vezes a aspectos militares e 16 vezes ao próprio Deus como ajudador.

Por isso, homem e mulher são iguais em termos de status, importância, valor, bênçãos, promessas, espiritualidade, adoração, utilidade e responsabilidade. Porém, o design, o estilo, as atitudes, os papéis, a contribuição e os interesses são diferentes. Se os homens são árvores, as mulheres são flores. O homem foi criado para dominar o planeta, a mulher foi moldada para embelezar a Terra. Os homens são construtores do mundo, as mulheres são arquitetas da sociedade. O homem é racional, a mulher é intuitiva. Se o pensamento dele é mais objetivo, a perspectiva dela é mais global. A mulher lê sinais não verbais, o homem entende mensagens claras. Homens partilham atividades, mulheres compartilham momentos. Assim como anjos de uma só asa não voam, o homem e a mulher só ganham as alturas juntos.

Será que diante da grave crise política a outra metade do ser humano - a mulher - não teria algo a contribuir para o governo?

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Para o coração que cansou de “Igreja”

Por Zoe Lilly

Muitos amigos meus “cansaram” de ir para igreja, se cansaram do sistema, da liturgia e da hipocrisia que vêem por ai. Falam para mim que continuam amando a Jesus e que leem a Bíblia em casa, mas que não querem mais se meter com a instituição “Igreja.” Eu tenho certeza que eles ainda amam a Jesus, que vivem de maneira santa diante de Deus e que fazem boas obras onde estão.

Não estou aqui para criticar ou julgar ninguém, mas ultimamente tenho pensado sobre esse “movimento dos sem-igreja” e por um bom tempo achei que eles tinham suas razões e justificativas, e quem era eu para discordar? Cresci na igreja, já vi os piores ângulos imagináveis, já vi muita hipocrisia de perto, mas continuamente ouvia uma voz que falava: “Não é a respeito dos outros, mas sim a respeito do que existe entre Eu e você.” Essa voz me manteve até hoje, 31 anos depois, ainda frequentando reuniões e ajuntamentos cristãos.

Ultimamente vejo que o problema nunca foi “não ir para igreja”- mas sim se conformar com a situação atual da Noiva de Jesus. Tem pessoas que vão para igreja e estão conformados, e tem aqueles que desistiram da Noiva, não querem ser parte da realidade bruta e feia em que ela se encontra, assim se conformando também.

Por muito tempo confesso que morria de vergonha de ser classificada “evangélica” por tantos absurdos que ouvia e via de pessoas que se diziam “crentes”. Era extremamente difícil falar que fazia parte de uma Noiva tão despedaçada e bitolada. Até que um dia comecei a ver que a Igreja era sim, uma lugar de pessoas extremamente problemáticas, mas que também era parte de mim.

Aprendi que amar o inimigo lá fora é fácil, mas perdoar o “irmão” crente do lado era um parto de mais de 96 horas. Aprendi que quando Jesus falou para carregar minha cruz, não era só sofrer a perseguição fora da igreja, mas dentro dela mesmo. Aprendi que perdoar alguém que não conhece a Jesus é leve, mas perdoar aquele que você estima estar uma posição de “unção” é muito mais pesado. Aprendi na raça e com muito suor, que fazer parte da Noiva me fazia ser mais como Jesus.

Não sou contra quem não vai para Igreja, nem aquele que é engolido pelo sistema religioso, mas sou a favor de pagar o preço para ver mudanças, para lutar por uma Noiva saudável e unida. Minha igreja local é longe de perfeita, mas nós (meus amigos e companheiros) juntos tentamos, mesmo errando inúmeras vezes, viver um cristianismo verdadeiro. Cristianismo não é para os fracos, é para aqueles que conseguem lutar pela verdade e o amor, mesmo que estejam diante de tudo que discordam, mas que ainda têm a esperança que um dia seremos a Noiva Imaculada.

Você sempre escolherá o preço que vai pagar.
O que muda é o resultado desse preço.

Eu escolho o maior preço, não porque sou melhor que ninguém, mas porque eu ainda não parei de sonhar e lutar, e não pararei até o fim.

domingo, 1 de maio de 2016

Foro privilegiado e o julgamento de líderes: uma reflexão bíblica

“Todos são iguais perante a Lei”, diz a Constituição do Brasil. Contudo, na prática, as coisas não parecem ser assim. Enquanto pessoas comuns são julgadas por juízes de primeira instância, as autoridades têm direito ao “foro privilegiado”. Dependendo do cargo que ocupam, as autoridades são julgadas por tribunais de instâncias superiores. Em princípio, esse privilégio visa defender o interesse público e não é algo pessoal, pois liga-se somente ao cargo, e não à pessoa que o ocupa.

Contudo, o foro privilegiado pode ser desvirtuado, como bem mostra a política brasileira atual. Nomeações como as de Carolina Pimentel são questionadas, pois usariam o foro privilegiado como uma maneira de escapar de investigações e pedidos de prisão. O caso mais notório é o do ex-presidente Lula, que foi nomeado ministro de Estado, supostamente para escapar de investigações da Operação Lava-Jato. No caso, a nomeação está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal.

Não é à toa que o instituto do foro privilegiado está sendo questionado no Brasil. E o cristão, como deve se posicionar? A questão é mais complexa do que parece, e não pretendo dar um parecer definitivo e bem fundamentado aqui. Entretanto, creio que a Bíblia traz alguns princípios espirituais que ajudam nossa análise. Qual o ensino bíblico sobre o julgamento de líderes? Vamos usar 1 Timóteo 5 como nosso texto-base:

"Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário. Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam. Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade." (1 Timóteo 5:17-21, grifos meus)

O princípio da honra

Presbíteros são os líderes da Igreja do século I. O termo significa “ancião” e também é usado para descrever os pastores. O primeiro ensino do texto é o de que os presbíteros que presidem bem devem ser merecedores de “dobrados honorários”. A palavra “honorários” pode ser traduzida como “avaliação pela qual o preço ‘fixado”, mas também tem o sentido de “honra, reverência, deferência”.

O princípio é o de que líderes devem ser honrados, principalmente quando executam bem a sua função e se ocupam de tarefas mais importantes. No caso de presbíteros, isso se aplica àqueles que são bons líderes e se dedicam à pregação e ao ensino da Bíblia. Essa honra se manifesta por meio do pagamento do salário, como um reconhecimento do trabalho feito por eles, e por meio do respeito e reverência que devemos a eles.

De modo análogo, as autoridades civis também têm o direito de serem remuneradas, por meio dos impostos. O trabalho delas é reconhecido pelo Senhor, que também exige de nós que lhes demos a honra que lhes é devida.

"Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra." (Romanos 13:6-7)

O princípio do julgamento justo

A honra não livra as autoridades espirituais de responderem pelos seus atos. Presbíteros são líderes espirituais, mas que podem ser denunciados quando erram. A condição exigida no Novo Testamento é o de que mais de uma pessoa tenha testemunhado o fato.

Em princípio, isso parece ser uma espécie de “foro privilegiado”, mas o princípio das duas testemunhas é aplicado a todos os casos de disciplina bíblica, seja no Antigo ou no Novo Testamento:

"Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato." (Deuteronômio 19:15)

"Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça." (Mateus 18:15-16)

"Esta é a terceira vez que vou ter convosco. Por boca de duas ou três testemunhas, toda questão será decidida." (2 Coríntios 13:1)

A exigência das duas testemunhas é uma forma de garantir um julgamento justo, e se aplica tanto a pessoas comuns (irmão), como a autoridades. É a regra geral para qualquer pecado cometido, como forma de se estabelecer um fato.

As autoridades civis também têm direito a um julgamento justo. Biblicamente, porém, esse direito é o mesmo dado a pessoas comuns.
O princípio do exemplo

Líderes são exemplos para seus liderados. Se um líder não é punido quando comete uma falta grave, os liderados perdem o temor e começam a pecar. É exatamente o que acontece hoje no Brasil. Uma vez que as autoridades raramente são punidas, o brasileiro comum deixa de ver problema em cometer pequenos atos de corrupção. Ou pior: muitos partem mesmo para o crime. Não há meio mais eficaz de liderar do que o exemplo.

Por isso, quando os presbíteros “vivem no pecado”, a Bíblia ensina que eles devem ser repreendidos na frente de todos. É uma sentença mais rigorosa do que a de um cristão comum, que seria repreendido privadamente. Todavia, uma vez que o presbítero ocupa uma função pública e deve ser um referencial para a Igreja, ele é julgado com um rigor maior, “para que também os demais temam”. Quanto maior o conhecimento, ou a autoridade, mais rigoroso é o juízo:

"Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo." (Tiago 3:1)

As autoridades civis também respondem por seus atos e são julgadas quando erram. Não é porque Deus as constituiu que elas podem fazer o que quiserem. O Salmo 82 é uma grande prova dessa verdade:

"Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento. Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios? Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado. Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra. Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo. Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir. Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações." (Salmo 82)

O princípio da imparcialidade

Um último princípio a ser analisado é o da imparcialidade. No texto-base, Paulo encerra suas recomendações a Timóteo sobre presbíteros, dizendo que ele não deveria fazer nada com parcialidade. Os conselhos que ele dá sobre as lideranças deve ser guardado sem prevenção, ou seja, sem reservas ou receio de se cometer algum erro.

Secularmente, a autoridade goza da presunção da honestidade. Presume-se que ela não errou, a não ser que exista prova em contrário. Nem sempre o cidadão comum é tratado assim, e precisa provar a sua inocência em alguns casos, além de ser julgado com maior rigor em certas situações. Na Igreja também somos tentados a tratar pastores e presbíteros da mesma maneira: a posição pressupõe um certo nível de integridade. Infelizmente, os cristãos “comuns” não gozam da mesma presunção, embora também se espere deles um certo nível de integridade.

Autoridades e pessoas comuns devem ser julgados imparcialmente, sem qualquer tipo de favorecimento. Se, por exemplo, a lei brasileira dá privilégios a autoridades e a pessoas com curso superior, a Bíblia não adota esse padrão em seus julgamentos.

Cristo: nosso modelo de líder

Parece-me claro que os princípios bíblicos parecem não validar o foro privilegiado. Entretanto, o argumento mais forte que encontro para me opor ao privilégio não está nos princípios acima, mas em Cristo Jesus.

Cada líder tem a missão de representar a Cristo dentro de sua esfera de poder. Isso vai desde o irmão mais velho cuidando dos menores até os reis e presidentes. Quando honramos os pais, por exemplo, isso nos lembra que devemos honrar muito mais a Deus e ao seu Filho. Jesus é aquele que julga com justiça. Ele é o exemplo perfeito de como devemos viver. E Ele é imparcial em seus julgamentos.

No entanto, o próprio Cristo foi julgado e condenado injustamente, apesar de sua perfeição! Se Cristo fosse uma autoridade do mundo, certamente ele teria tentado obter algum tipo de “foro privilegiado” para escapar. Jesus tinha o direito de fazê-lo, como Filho de Deus. Porém, Ele preferiu não usar seu privilégio:

"Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder? Naquele momento, disse Jesus às multidões: Saístes com espadas e porretes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias, no templo, eu me assentava [convosco] ensinando, e não me prendestes. Tudo isto, porém, aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então, os discípulos todos, deixando-o, fugiram." (Mateus 26:53-56)

"Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui." (João 18:36)

Por amor aos seus liderados, Cristo não recorreu a anjos ou ministros. Ele aceitou ser julgado e até condenado em um julgamento injusto. Ele mostrou que o verdadeiro líder deve estar disposto até a morrer pelos seus! Na verdade, a condenação de Jesus é o motivo pelo qual nós somos salvos:

"Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito." (1 Pedro 3:18)

Pense em como isso é diferente dos líderes que usam o foro privilegiado para se protegerem, ainda que prejudicando a sociedade! As autoridades desse mundo querem usar o seu poder para se protegerem do povo. Cristo faz o oposto. Ele aceita sofrer o mais injusto dos julgamentos, com o maior rigor possível, para que nós fôssemos salvos.

Porque Ele sofreu e ressuscitou, líderes e liderados que erram e vivem no pecado podem ter esperança. Sim, até mesmo os políticos e magistrados brasileiros. Basta que se rendam ao Líder Supremo, à Autoridade Suprema, que é Jesus Cristo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro