domingo, 24 de julho de 2016

Viver é perigoso

A minha vida está sempre em perigo, mas não me esqueço da tua lei. Salmo 119:109

Paisagem do sertão tatuada na alma, buritis plantados no peito, sabedoria disfarçada de curiosidade, escondendo para revelar e revelando para esconder, fingindo que nada sabe e desconfiando de muita coisa, criando significados de cada som, ele encantou e ainda encanta. No dizer de Carlos Drummond de Andrade, João era “tudo escondido, florindo como flor é flor, mesmo não semeada”, “mapa com acidentes deslizando para fora”, que “guardava rios no bolso, cada qual com a cor de suas águas”.

João Guimarães Rosa era assim, enigmático e misterioso, mas sempre um guia cheio de sensibilidade. Com sua prosa inventiva, especialmente na voz do jagunço Riobaldo, personagem do romance Grande Sertão: Veredas, o escritor mineiro nos avisou mais de uma vez: “Viver é perigoso!” Disse mais: “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida.” E continua: “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe.”

Sim, viver é muito perigoso, porque você vai encontrando coisas desconhecidas pela frente, porque pode ser assediado pelo fracasso, porque pode ser dominado pela desilusão, porque o tempo é mais curto do que os sonhos, porque o fim poder vir antes do começo, porque você pode perder e não reencontrar a fé, porque pode ter mais tristezas do que alegrias, porque pode não saber o caminho, porque pode ser ferido pelas pedras e pelos espinhos, porque pode não entender direito quem você é, porque o inimigo está espreitando em cada curva, porque pode não perceber que Deus está lá esperando por você.

Viver é muito perigoso, mas não viver é ainda mais. Jogar é muito perigoso, mas ficar sentado é ainda mais. Andar de avião é muito perigoso, mas não viajar é ainda mais. Abrir-se para o mundo é muito perigoso, mas fechar-se para a vida é ainda mais. Dormir é muito perigoso, mas ficar com insônia é ainda mais. Trabalhar é muito perigoso, mas ficar ocioso é ainda mais. Relacionar-se é muito perigoso, mas isolar-se é ainda mais. Apaixonar-se é muito perigoso, mas não amar é ainda mais. Casar é muito perigoso, mas continuar sozinho é ainda mais. Ter filho é muito perigoso, mas matar o DNA é ainda mais. Viver é muito perigoso, mas morrer é ainda mais.

Você tem medo de viver? Apesar de todos os perigos, você pode viver com segurança se encontrar refúgio no abrigo do Senhor, se buscar paz no santuário celestial, se verificar o caminho no mapa da eternidade, se seguir as indicações das placas, se convidar o anjo para ser o companheiro de jornada, se confiar a alma ao protetor da vida. Viver é muito perigoso, mas não viver é ainda mais perigoso. Viver é perigoso se você tiver medo de viver.