domingo, 10 de julho de 2016

Consumismo é desespero

“Não ameis o mundo nem o que nele existe. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo: as paixões da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens não provém do Pai, mas do mundo”. (1 João 2:15-16)

Flávio Gikovate é confidente de alguns dos empresários e executivos mais bem-sucedidos do país. Na sua entrevista denominada de “O consumismo da elite é desespero” concedida à Revista Época, o psiquiatra fala sobre as angústias da elite que frequenta seu consultório e o estresse do mundo moderno. Nessa conversa, ele analisa a gastança dos brasileiros ricos, mas de um ponto de vista diferente da moda que impera hoje. Por incrível que pareça, podemos observar algumas verdades bíblicas importantes, embora expressa de maneira involuntária pelo psiquiatra.

Em primeiro lugar, ele responde a uma moça que lhe havia perguntado se era possível ser feliz sendo pobre. Ele cita estudos de Harvard que mostram que se faltar dinheiro para o básico – saúde, comida – provavelmente o indivíduo não consegue ser feliz. Algum para o supérfluo pode até ser importante, mas a partir de um ponto para cima ele pode atrapalhar bastante. O consumismo é muito mais fonte de infelicidade do que de felicidade, disse. “O prazer trazido é efêmero, uma bolha de sabão – e em seguida vem outro desejo. Ele gera vaidade, inveja, uma série de emoções que estão longe de qualquer tipo de felicidade. E tudo vira comparação”. 

Interessante ler ele comentar que, a liberdade sexual advinda com a chegada da pílula anticoncepcional e a emancipação sexual dos anos 60 prometia “adoçar” as pessoas com o lema “Faça amor, não faça guerra”, mas, em vez disso, trouxe infelicidade. Sexo e amor são coisas diferentes. Segundo Gikovate, é triste ver que os ideólogos daquela revolução estavam totalmente errados porque a emancipação sexual aumentou a rivalidade entre os homens e entre as mulheres, criou um clima de competição e atiçou tudo que tinha de ruim no ser humano. Foi um agravador terrível do consumismo. Em países de Terceiro Mundo – e, intelectualmente, aqui no Brasil é quase Quarto Mundo –, a elite só piorou nesse tempo. É uma elite medíocre, ignorante, esnobe. Na Europa e nos EUA, o exibicionismo da riqueza é muito menor. Na Europa, as pessoas consomem qualidade, não quantidade. Elas têm uma bolsa cara, mas não várias bolsas, para fazer disputa. Aqui há um comportamento subdesenvolvido e medíocre. E totalmente competitivo. As festas de casamento e de 15 anos são patéticas. A próxima festa tem de ser maior. Isso é sem fim. É sofrimento, é infelicidade. A quantidade e o volume com que as pessoas correm atrás dessas coisas é desespero.

Segundo o psiquiatra, desde o início, o erótico está acoplado ao consumismo. Nos anos 20, foi preciso introduzir novos produtos que não tinham a ver com necessidades, como o xampu. A ideia que tiveram foi acoplar um desejo natural a um desejo que se queria criar. Então botavam uma mulher de cabelos "bonitos" para vender xampu. O consumismo sempre esteve relacionado ao erótico, não ao romântico. O romântico é o anticonsumismo. As boas relações amorosas levam as pessoas a uma tendência brutal ao menor consumismo. A verdadeira revolução, se vier, vai estar mais ligada ao amor do que ao sexo.

Flávio, que há pelo menos 30 anos atende algumas das pessoas mais bem-postas do país, explica que entre o mundo dos ricos e o do povo as diferenças são pequenas. Os conflitos são sentimentais, mais do que sexuais. Problema de família, briga de irmãos. Empresários têm muitos problemas de sucessão. O pai tem dificuldade de soltar a rédea e o filho tem a frustração de estar com 40 anos e não ter assumido os negócios. Outras vezes são problemas de ordem financeira, mesmo. O cara está indo mal, fica angustiado, tem os problemas familiares que derivam disso. Tem as tensões societárias, etc. Administrar uma empresa é complicado, quando vai bem tem problema, quando vai mal tem problema. 

As pessoas dizem que não são escravas do dinheiro, mas são escravas do trabalho, o que é a mesma coisa, pois trabalho é dinheiro. E isso gera estresse. O estresse vem da ameaça, então, numa empresa em que você é cobrado o tempo todo, vive com medo de ser demitido, cria um clima muito mais grave de ameaça que o necessário. As pessoas ficam com o pensamento acelerado e isso empobrece a reflexão. Tem-se a sensação de que o tempo ficou curto, de que estão sempre devendo alguma coisa. A pessoa se sente sempre em falta com um livro que não leu, um filme que não viu, o bem que não adquiriu, uma festa que não participou. 

É preciso esvaziar a cabeça. É preciso haver uma libertação desse mundo. Se a vida fosse um pouco menos competitiva, seria possível abrir mão de muitos remédios psiquiátricos. 

Outra análise que pode ser polêmica refere-se às grandes transformações de que a humanidade precisa. Segundo o psiquiatra, elas “estão ligadas à mudança no papel da mulher”. Quando cursava faculdade, disse, havia 78 homens e duas mulheres. Hoje, as faculdades têm em média 60% de mulheres. É porque os homens estão mais folgados e as mulheres, mais guerreiras. Mas isso vai dar numa série de desequilíbrios, segundo Gikovate. Não sei se as mulheres vão gostar de sustentar os homens, nem se os homens vão gostar de ser sustentados. No ambiente de trabalho não tem problema nenhum, ao contrário, muitos empresários acham que as mulheres trabalham melhor. Mas em casa vai dar problema. Como faz para ter filho? Quem vai cuidar? Como vai terminar isso, ninguém sabe. A verificar. Mas não pense que é uma variável desprezível. A independência econômica da mulher desequilibra em muito o mundo.

A maior felicidade das pessoas ainda é quando conseguem estabelecer vínculos amorosos de qualidade no que fazem. Tanto faz ser executivo ou não. Muitos invertem, fazem aquilo que dá dinheiro, não o que amam. Gostar do que se faz e ter uma boa parceria sentimental talvez sejam as duas principais fontes de felicidade nesse nosso mundo. Entretanto, é bom ter sempre em mente que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Coríntios 15:19)