sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Ame o próximo

E um deles, que era mestre da Lei, querendo conseguir alguma prova contra Jesus, perguntou: — Mestre, qual é o mais importante de todos os mandamentos da Lei? Jesus respondeu: — “Ame o Senhor, seu Deus, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente.” Este é o maior mandamento e o mais importante. E o segundo mais importante é parecido com o primeiro: “Ame os outros como você ama a você mesmo.” (Mateus 22: 35-39)

Eu vivo em uma casa geminada, e novo inquilino mudou recentemente para casa ao lado. Ainda pouca coisa eu sei sobre eles, mas uma eu já percebi: eles têm um relacionamento extremamente próximo com seus alto-falantes de graves. Se você já teve vizinhos com um sistema de som potente, você vai saber por que estou frustrado. Enquanto outras ondas sonoras batem ou são absorvidas pelos objetos ao seu redor, o som grave viaja através deles. Eu não consigo ouvir as palavras da canção, mas sinto o chão vibrar fazendo o meu coração disparar com o som. É o tipo de som que mesmo tampões de ouvidos não podem abafar, o que é especialmente irritante às 01h da manhã.

Situações como essas me tentam deixar de lado todo sermão que eu ouvi sobre a paciência, mansidão e autocontrole e começar a bater na parede com um cabo de vassoura. Mas isso é completamente antitético ao que Cristo exige. A mensagem de Jesus “amarás o teu próximo como a ti mesmo” é um verso que muitas vezes é jogado lá fora, sem nenhuma reflexão. No entanto, eu estou começando a perceber que há grandes implicações no mandamento cristão de amar alguém do jeito que eu me amo.

Como eu me amo? Bem, para começar, eu estou sempre pensando em mim mesmo. Eu penso sobre o que eu vou comer no café da manhã, o que eu preciso fazer no trabalho, o que eu preciso para comprar no mercado. Eu também amo a mim mesmo fazendo aquilo que eu mais gosto que é ler e escrever. Eu gosto de programar meu dia em torno das coisas que eu quero ou preciso realizar. Basicamente, os meus pensamentos e meus dias estão centradas em mim.

Então, quando Jesus nos diz para amar o próximo como amamos a nós mesmos, isso é uma ordem que precisa ser cumprida, embora não tenhamos facilidade para isso. Ele está dizendo que precisamos pensar nos outros, tanto quanto nós pensamos em nós mesmos. Significa que devemos lembrar das necessidades dos outros como nos lembramos das nossas. Significa buscar a felicidade, a bondade, a paz, a segurança dos outros, tanto quanto buscamos para nossas próprias vidas.

Como podemos fazer isso, especialmente àqueles que nos incomodam, nos machucam, ou talvez até mesmo nos perseguem? Quando eu penso sobre amar meus vizinhos, lembro-me do sacrifício que Cristo teve na cruz por nós. Não significam sacrifícios para quem eu amo somente, mas para com todos. O segredo para estar apto a fazer esse sacrifício é amar a Deus com todo o coração. Este é o primeiro mandamento. Quando eu concentrar todo o meu amor para com Deus, ele toma meu coração egoísta e o transforma em um coração capaz de amar os outros. O amor de Cristo é suficiente para nos fazer derramar amor altruísta para com os outros, até mesmo com aqueles vizinhos inconvenientes.

O amor altruísta não é algo que eu aprendo a exercitar sozinho. Eu preciso da ajuda de Cristo. Preciso entender os propósitos de Deus. Quem sabe Deus tem usado meus vizinhos barulhentos para condenar meu coração egoísta, para me mostrar o quanto melhor eu posso se colocar a felicidade e a paz dos outros acima do meu próprio interesse. Eu sei que não vai ser fácil para começar a amar as pessoas, tanto quanto eu me amo, mas eu sei que o primeiro passo é amar a Deus acima de tudo.

Você ama os outros como você ama a si mesmo? Sem amar a Deus em primeiro lugar, isso é impossível de acontecer. Se há alguém em sua vida que você está lutando para amar, peça a Deus para ajudá-lo a perseverar no amor e a amá-Lo melhor, também.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Edifique e não derribe!

A mulher sábia edifica a sua casa, mas a insensata, com as próprias mãos a derriba. (Provérbios 14:1)

Natal é tempo de luzes, alegria e colorido. Já vi arranjos natalinos deslumbrantes. Nova York é uma das cidades que muda de rosto na época do Natal. Dá a impressão de ser uma cidade invadida por luzes mágicas. Em Riverside, Califórnia, o lar de Jorge e Lina, também é um espetáculo deslumbrante cada mês de Dezembro. Lina tem um dom especial e um gosto excelente. Adorna o interior de sua casa de modo que os sonhos de qualquer criança tornam-se realidade. Lina é uma mulher que “edifica sua casa”.

As duas palavras chaves do texto de hoje são “edificar” e “derribar”. É fácil derribar. Basta pegar uma marreta e bater. Difícil é edificar, requer paciência, tempo e perseverança. Jorge e Lina contam que decorar a casa lhes toma um mês de trabalho. Jorge se encarrega de colocar as luzes exteriores e Lina cuida do interior. Desmontar tudo lhes toma apenas três ou quatro dias.

A vida é o desafio de levantar uma bela construção. Nada acontece por acaso. Precisa prestar atenção aos mínimos detalhes. Muitas pessoas escondem sua vida sem alegria nem colorido atrás da palavra destino, mas o destino não é um assunto de simples oportunidade ou de sorte, senão de escolha. A edificação pronta não é algo que se consegue apenas esperando, é preciso trabalhar.

Interessante que o autor do provérbio de hoje destaca a expressão “com suas próprias mãos”. Ninguém é culpado da derrota a não ser o próprio derrotado. A responsabilidade é pessoal. Deus lhe dá os recursos, mas é você quem edifica ou derriba.

No longo caminho da edificação pode haver momentos de desânimo e cansaço. Pode haver pequenas frustrações; muitas vezes você pode ter a impressão de que a meta está distante, mas nenhuma derrota chega só porque algo não deu certo, senão porque você desiste e abandona.

Hoje é um novo dia na história deste mundo e pode ser também um novo dia na sua experiência. Não desista. A edificação da vida não é um evento, mas um processo. Pouco a pouco, passo a passo com os olhos fixos em Deus e as mãos no trabalho você verá finalmente suas obras acabadas, deslumbrantes e bonitas. Não esqueça - “a mulher ou o homem sábio, edifica a sua casa, mas os insensatos a derribam”.

domingo, 15 de novembro de 2015

Dizer "sim" a Deus

“Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.” (Mateus 5:20)

A cada dia ouço notícias sobre comportamentos preocupantes de pessoas que deveriam saber que estão agindo errado. Os ataques de Paris, por exemplo, comprovam que as pessoas perderam totalmente o senso de humanidade. O desastre de Mariana mostra o pouco caso com a segurança das famílias e com a preservação do meio ambiente. A Operação Lava Jato escancara a falta de zelo com o bem público. Diariamente assistimos a reportagens sobre assaltos, homicídios, estupros e invasão a propriedades, muitos acontecidos à luz do dia e diante de câmaras de vídeos. Na maioria das vezes, os culpados parecem estar cegos em seus erros, ou sem entender como seriam capazes de cometer tais atrocidades. Mas outros já nem escondem o rosto numa demonstração de completa falta de vergonha na cara.

Como membro de uma comunidade que procura seguir os preceitos divinos – mas longe de atingir a perfeição – fico pensando como algumas pessoas são capazes de cometerem atrocidades contra o próximo, ou até mesmo contra a Nação – como no caso de desvios de recursos públicos, que se fossem corretamente aplicados poderiam evitar que muitas pessoas morressem nos corredores dos hospitais por falta de atendimento – e ainda acharem que não estão cometendo pecados. Confesso que, em alguns momentos, eu também me vejo com medo de cair em tamanha cegueira e, pior, colocar em risco o testemunho da Palavra de Deus.

Mas afinal de contas, porque Jesus disse que a minha justiça deve exceder a dos fariseus, homens conhecedores da lei? Como posso pretender ter mais sabedoria do que os meus pais? Como posso saber mais sobre o mundo do que os meus professores? Será que poderia ter uma melhor compreensão da moral e da verdade do que meus líderes governamentais? Se eu os vejo tropeçarem em erros morais aparentemente óbvios, como poderia escapar do mesmo destino?

Após recentemente confidenciar este pavor a um ente querido, eu me lembrei que pecados terríveis ou estilo de vida nada condizente com os preceitos divinos não aparecem do nada. Os desvios de verbas não são feitos sem premeditação. Matar em nome de uma religião é a prova completa de cegueira espiritual. Adultério não é cometido por acaso. O divórcio não acontece do nada. Calúnia e injúria não são feitas sem intenção. O pecado sempre começa como uma pequena semente que, enterrada, cria raízes e aflora com o tempo. Eu posso optar por alimentá-la... ou simplesmente deixá-la morrer.

Sei que a minha natureza pecaminosa é tão forte quanto o impulso do Espírito Santo, mas posso escolher a quem dar vazão. Muitas vezes tenho que ter discernimento de qual ação piedosa preciso exercer no momento para contrabalancear a força do pecado: Pode ser a humildade, a pureza, a ocupação da mente com o trabalho, a compaixão, a fidelidade, etc. Muitas vezes fico cansado, irritado, lascivo, e orgulhoso e então, fico vulnerável para tomar decisões que violam as minhas consciências, decisões pequenas que parecem sem sentido, mas com consequências que tomam dimensões gigantescas.

Eventualmente, a vida torna-se uma explosão de pecado e, confuso, clamo: “Onde foi que perdi o controle?”

O conforto que tenho é que viver corretamente é um processo. Eu não vou acordar numa manhã e, de repente, achar que estou totalmente livre de cometer pecados, mas enquanto não atingir a perfeição, tenho a certeza de que “se andarmos na luz, como [Deus] está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (I João 1:7-9)

Se eu digo “sim” a Deus quando ele me mostra como posso permanecer fiel a ele em meu estilo de vida, tenho a certeza de que ele irá me fortalecer para dizer “não" às escolhas que possam infernizar a minha vida.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Passaporte carimbado

Teus olhos viam meu embrião, e em teu livro foram registrados todos os meus dias; prefixados, antes mesmo que um só deles existisse! (Salmos 139:16)

Hoje é um dia de muita tristeza para nós. Deus chamou para si um irmão querido. Pai de uma família muito amada, a família Carizzi. Há quatro meses ele caíra de uma escada em sua casa e fraturara o crânio. Havia passado três meses em coma. Após longa recuperação, quando usara todos os recursos médicos possíveis, havia voltado para casa com intuito de ali terminar o tratamento longe de possíveis infecções hospitalares. Nós nos regozijávamos pela sua recuperação quando veio a falecer vítima de pneumonia. 

É comum nesta hora os parentes da pessoa falecida ouvirem: “foi da vontade de Deus”, “chegou a hora, todos temos a nossa hora”, ou “ninguém morre de véspera.” Na verdade, quando chega a hora, não há nada que possa impedir a nossa partida. Também ninguém pode antecipá-la. Por quê?

Porque nascemos com os dias contados. O nosso passaporte está carimbado com a data de entrada e a de saída. Deus conhece a quantidade de nossos dias desde antes de sermos concebidos, e sabe tudo o que fazemos no dia-a-dia, em minuto-a-minuto, pois a nossa história “está escrita” no Livro da Vida; cada um de nossos pensamentos, cada um de nossos passos, cada uma de nossas ações. Todas as coisas só acontecem de acordo com a vontade de Deus. Ele anda junto com todas as coisas que acontecem, sejam boas e ruins. Nenhuma coisa ruim acontece sem que Deus queira, porque Deus quer que aconteça para uma finalidade, quer a gente saiba ou não. Isso se chama Providência Divina.

Sem a convicção absoluta da Soberania de Deus é impossível entender a Providência de Deus. A Providência é uma doutrina pouco estudada por alguns motivos: primeiro, por motivos filosóficos. A partir do século 18, filósofos, historiadores e cientistas começaram a falar em “mãe natureza”. Dizem que todas as coisas naturais têm uma explicação natural; a natureza explica todas as coisas que acontecem na natureza, significando que Deus não precisa participar dessa história. Ou seja, a tal da mãe natureza substitui Deus. 

Há uma coisa mais forte do que isso, que é o humanismo no sentido de “o homem é o centro de todas as coisas”. E assim o homem se torna o soberano sobre a sua vontade, a sua vida, sem precisar de Deus. Aqueles que defendem essa história da mãe natureza e do humanismo acreditam num Deus Transcendente, ou seja, num Deus que chegou, criou todas as coisas, foi para o céu e lá ficou, deixando que “mãe natureza” cuide da criação. 

Não nos preocupam aqueles que pensam assim e vivem longe de Deus; nós nos preocupamos com aqueles que estão perto de nós, dentro da nossa Igreja, que acham que o homem toma as rédeas da situação e as decisões. Vejam os livros de auto-ajuda cristã. O que é auto-ajuda? É o poder de se ajudar a ser auto-suficiente. A auto-ajuda cristã é um paradoxo, porque, ou confiamos em Deus para nos ajudar ou achamos que nós mesmos podemos resolver nossos problemas. 

Além das questões filosóficas, há as históricas. No século 20, o século da tecnologia e da comunicação, exacerbou-se o que sabemos sobre as desgraças do mundo, o que levou muita gente a achar que Deus não estava mais no controle dos fatos, da história. A importância da doutrina da Providência é sabermos que Deus está no controle de tudo e de todos. E por mais que tenhamos cuidado com a nossa vida, sem a Providência Divina nós não sobreviveríamos. “Todos esperam em ti que lhes dês alimento no devido tempo. Tu lhes dás, e eles o recolhem; abres a mão, e eles se fartam de bens. Escondes a tua face, e eles se perturbam; se retiras o seu alento, perecem e voltam a seu pó. Quando envias o teu fôlego, eles são criados, e renovas a face da terra.” (Salmos 104:27-30)

É natural lutar pela vida. Perdê-la traz muita dor aos que ficam. O que nos consola é a certeza de que nos veremos no porvir, pois o nosso Deus providenciou um lugar para juntos vivermos a eternidade. Saber que nosso passaporte está carimbado só nos faz descansar na Soberania de Deus e depender de sua Providência.

domingo, 8 de novembro de 2015

Há uma guerra em mim

“Não o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio.” (Romanos 7:15-20) 

Dizer que não fez nada de errado, mesmo tendo cometido um crime, tornou-se uma das afirmações muito comum. Nos dias de hoje os criminosos não sentem tanto “o peso na consciência”. Alguns deles nem consciência têm, ou seja, falta-lhes o senso do certo e do errado. Por exemplo, há pessoas que cometem o pecado da corrupção sem darem conta disso. 

Corrupção é o ato ou efeito de se corromper, oferecer algo para obter vantagem em negociata onde se favorece uma pessoa e se prejudica outra. Segundo Calil Simão, é pressuposto necessário para a instalação da corrupção a ausência de interesse ou compromisso com o bem comum: A corrupção social ou estatal é caracterizada pela incapacidade moral dos cidadãos de assumir compromissos voltados ao bem comum. Vale dizer, os cidadãos mostram-se incapazes de fazer coisas que não lhes tragam uma gratificação pessoal. 

Cometemos corrupção quando queremos muito ir a um show e alguém propõe nos arrumar uma carteirinha de estudante sem sermos estudante. Aí, aceitamos acreditando que não estamos fazendo mal a ninguém quando pagamos a meia entrada. Mas estamos. Além de cometermos o crime de falsidade ideológica, estamos tomando o lugar de um estudante que efetivamente tem direito, principalmente agora, que entrou em vigor a lei que limita em 40% a quantidade de ingresso de meia entrada. 

Cometemos corrupção quando aceitamos que um amigo nosso nos permite passarmos na sua frente diante de uma fila de mais de duas horas de espera em uma exposição. Às vezes até ficamos gratos pela “gentileza” dele. Cometemos corrupção quando precisamos ir ao banco, mas a única vaga disponível no estacionamento é a de deficiente, que não é o nosso caso, e então ali estacionamos “porque vamos tirar dinheiro no caixa e não vamos demorar nada.” 

Cometemos corrupção quando o nosso carro é parado em uma blitz e, ao percebermos que esquecemos de pagar o licenciamento, tomamos a iniciativa de negociar com os policiais uma saída “alternativa”. Cometemos corrupção quando na hora de pagar o dentista, nós aceitamos o desconto oferecido por ele para pagar sem nota fiscal. Cometemos corrupção quando deixamos de registrar empregados para não pagar impostos e achamos a atitude compreensível pois, afinal, os encargos trabalhistas são extremamente elevados. 

Cometemos corrupção quando apresentamos atestado médico falso para faltar ao trabalho ou escola, e achamos que isso não é tão grave assim, já que todo mundo faz de vez em quando. Cometemos corrupção quando paramos o carro em fila dupla para pegar as crianças na escola, e achamos isso normal, pois os outros precisam entender que temos que pegar os nossos filhos. Cometemos corrupção quando queremos ser mais esperto que os outros e forçamos a ultrapassagem na fila de carros que estão aguardando a vez para fazerem o retorno. 

Muitas vezes fazemos tudo isso porque somos forçamos pelo “sistema”, com aquela desculpa de que todo mundo faz, que problema há? Mas depois nos arrependemos. É bem verdade que a maioria das pessoas não querem ser tachadas de corruptas, mas nem todas conseguem verdadeiramente vencer a corrupção. Há uma guerra dentro de nós. Se fazemos o que não desejamos, é porque não somos mais nós que fazemos, mas o pecado que habita em nós. Conforme disse o Paulo, sabemos que nada de bom habita em nós, isto é, em nossa carne. Porque temos o desejo de fazer o que é bom, mas não conseguimos realizá-lo. Pois o que fazemos não é o bem que desejamos, mas o mal que não queremos fazer, esse continuamos fazendo. Ora, se fazemos o que não queremos, já não somos nós que o fazemos, mas o pecado que habita em nós. A carne gosta do pecado, mas o espírito o odeia. É por isso que existe a guerra entre a carne e o espírito. Vencerá aquele que alimentarmos melhor. 

Quem você quer que vença a guerra que há dentro de você? A carne ou o espírito?

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Salvação e fé

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8-9)

A Bíblia é bem clara ao afirmar que nossa salvação é totalmente pela graça: “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3.23-24).

Nós só compreendemos corretamente essa verdade quando conhecemos qual a nossa condição e posição diante de Deus. Já nascemos “mortos em ofensas e pecados” (Efésios 2.1), cada um de nós é “servo do pecado” (João 8.34) e, por natureza, “... todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” (Isaías 64.6). Além dessa corrupção interior, todos nós nascemos debaixo da condenação do pecado, pois “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6.23). Em tal situação é impossível que o homem contribua, com o mínimo que seja, em sua salvação. Assim como um morto não pode fazer coisa alguma, um morto espiritual não pode fazer nenhum bem espiritual.

Por isso nossa salvação depende inteiramente de Deus, que por Sua maravilhosa graça, enviou Seu Filho ao mundo para viver e morrer em nosso lugar. E não apenas isto, é Ele quem nos ressuscita espiritualmente (Efésios 2.1) e nos traz a Cristo. Sem essa ação de Deus, operando o novo nascimento (João 3.3), ninguém viria a Cristo: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou o não trouxer”(João 6.44). Nem o arrependimento e a fé podem ser considerados como uma obra nossa da qual depende nossa salvação, pois a Bíblia ensina que até essas coisas são dons de Deus dados a nós: “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também a padecer por ele, ...” (Filipenses 1.29); “Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência, e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?” (Romanos 2.4). A fé não é a causa da nossa salvação, mas o instrumento pelo qual nos apropriamos dela. Além disso, como eu disse acima, a fé, juntamente com o arrependimento, é um dom de Deus.

Talvez você concorde com tudo o que eu disse até agora, mas afirme que se o cristão não permanecer na fé e não for obediente em sua vida cristã poderá perder a salvação. No entanto, ao contrário do que a maioria dos cristãos pensam, a salvação não pode ser perdida, justamente pelo fato de a salvação ser pela graça e não depender de obras! Isso é ensinado em toda a Bíblia e aqui citarei apenas algumas passagens. Jesus disse em João 6.47: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna”. Tudo aqui está no presente. Se alguém crê em Jesus com verdadeira fé, então ele já tem, no presente, a vida eterna. Jesus não disse que aquele que crê n’Ele terá a vida eterna, mas que já tem aqui e agora. Ora, se a vida que o cristão tem é eterna, é ilógico pensar que ela possa ter um fim ou que ele possa perdê-la, afinal, ela é eterna.

Ainda sobre isso, Jesus disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem. E dou-lhes a vida eterna, e elas nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai ” (João 10:27-29) . Jesus afirma que Suas ovelhas, que receberam a vida eterna, nunca hão de perecer, e ninguém (inclusive as próprias ovelhas, obviamente) poderá arrebatá-las e das mãos do Pai (e de Suas mãos, obviamente - João 10:30). Paulo também fala sobre isso em Filipenses 1:6: “Tendo por certo isto mesmo, de que aquele que em vós começou boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”.

Mas talvez a passagem mais forte sobre o assunto se inicie no capítulo 5 de Romanos, onde Paulo começa a argumentar sobre a certeza da salvação. Do versículo 6 ao 11 Paulo apresenta um argumento incrível a respeito disso. Do versículo 12 ao 21 Paulo faz um paralelo entre Adão e Cristo, e mostra que, assim como o pecado de Adão foi imputado a todos os seus descendentes resultando em condenação, assim também a justiça de Cristo é imputada a todos aqueles que creem, resultando em salvação. Isso acontece por causa de nossa união com Cristo; nós estamos n’Ele e, graças a essa união, nossos pecados foram imputados a Cristo, e a justiça d’Ele foi imputada a nós.

Depois de um parêntese nos capítulos 6 e 7, Paulo continua o tema da certeza da salvação no capítulo 8 da mesma epístola, e inicia o capítulo dizendo: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Ele continua o assunto e no versículo 30 afirma: “E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou”. Veja o que ele afirma: os mesmos que são justificados (todos os que creem) serão glorificados, isto é, terão seus corpos transformados quando Cristo voltar. Ele não disse que apenas alguns dos justificados serão glorificados, mas que todos os que são justificados serão glorificados. E para mostrar a certeza disso, ele até coloca a glorificação como um fato já consumado, utilizando o verbo no passado: “a estes também glorificou” (e não glorificará). Paulo encerra toda esta argumentação sobre a certeza da salvação com uma passagem muito conhecida, mas pouco compreendida:

“Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu ou, antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte todo o dia, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque eu estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:31-39) .

Paulo mostra na passagem acima que nossa salvação depende totalmente de Deus e do Seu amor por nós, que foi demonstrado na obra que Cristo realizou em favor dos Seus escolhidos. E esse amor é tão grande que absolutamente nada – nada mesmo, nem mesmo nós – pode nos separar dele! Em nenhum momento Paulo afirma que a salvação depende de nossas atitudes. O grande problema de muitos cristãos é achar que a salvação depende daquilo que fazem, e não daquilo que Deus fez em Cristo de uma vez por todas. Às vezes pensam e falam de tal forma que parecem crer que eles mesmos se salvam. No entanto, nossa salvação é, do começo ao fim, uma obra exclusiva de Deus, como Jesus, Paulo e todos os demais apóstolos demonstram várias vezes. “Do Senhor vem a salvação” (Jonas 2:9). "Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:9).

Somente quando compreendemos tudo isso é que entendemos o que significa ser salvo pela graça e podemos louvar a Deus juntamente com Paulo, humilhados e agradecidos diante do Trono da Graça: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:33-36) .

Se a salvação não depende em nada de nós, parece que podemos fazer o que quisermos e isso não fará diferença nenhuma. Será? Paulo responde a essa questão no capítulo 6 de Romanos, demonstrando que não é possível que aqueles que foram salvos continuem a viver no pecado, porque eles estão unidos com Cristo em Sua morte e ressurreição. Eles não apenas foram justificados, mas também regenerados. A velha natureza dos cristãos foi crucificada e agora eles têm uma nova. Não são mais servos do pecado, mas da justiça (Romanos 6:18). O prazer deles não é mais o pecado, mas a santidade. A obediência e as boas obras surgem agora naturalmente, frutos de um coração que foi transformado por Deus: “Pois somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Assim como uma árvore boa produz bons frutos, um verdadeiro cristão produz boas obras (Mateus 12:33).

Isso não significa que os que foram salvos não pecam mais, pois o próprio apóstolo João reconhece que isso ainda irá acontecer: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós [...] Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (I João 1:8,10). Então, nós podemos perder a nossa salvação, devido aos pecados que ainda cometemos? Não, e nessa mesma passagem João apresenta a solução: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça [...] Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; E, se, alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (I João 1:9; 2:1-2). O sacrifício de Cristo é suficiente para nos perdoar de todos os nossos pecados, passados, presentes e futuros. Além disso, Jesus ainda está diante do Pai, como nosso Advogado.

Mas e se não confessarmos os nossos pecados a Deus, seremos perdoados? Primeiramente, aquele que foi verdadeiramente salvo confessa seus pecados a Deus. Isto é natural para ele. No entanto, é óbvio que há muitos pecados que cometemos e não lembramos. E é possível que um salvo morra sem ter confessado seus últimos pecados. Em tais casos obviamente a pessoa é perdoada, porque o perdão não está alicerçado em sua confissão, mas na obra objetiva de Cristo em Sua vida e morte. Nossos pecados foram imputados sobre Cristo e Ele já levou a condenação por eles. Por outro lado, a justiça de Cristo é imputada a nós quando cremos, e graças a isso recebemos a vida eterna. Retomando o que já foi dito, “Portanto, agora nenhuma condenação...” (Romanos 8:1).

Se nossa salvação dependesse em algum momento de nossas obras todos estaríamos perdidos, pois mesmo as nossas melhores obras que praticamos como cristãos ainda são imperfeitas. Quantas vezes ajudamos o nosso próximo com o fim de cumprir o mandamento de Cristo de amarmos o nosso próximo como a nós mesmos, mas quando olhamos para dentro de nós encontramos uma raiz de interesse próprio? Quantas vezes nós, que somos ministros de louvor, fomos tomados de orgulho em meio à adoração, pelo fato de Deus nos usar como instrumentos para edificação da igreja? Sejamos sinceros, mesmo as nossas melhores obras não chegam aos pés do que é exigido pela lei de Deus: "Conforme ao mandado da lei que te ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda". Citando novamente o profeta Isaías: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia” (Isaías 64:6).

Resumindo tudo o que foi dito até agora, a salvação depende inteiramente de Deus e é totalmente pela Sua graça, sem nenhuma contribuição de nossa parte. A santificação não é a causa de nossa salvação, mas uma conseqüência. Só se santifica quem já foi salvo. E quem já foi salvo necessariamente se santifica. Por isso, todo aquele que foi salvo verá a Deus e pode ter certeza de sua salvação. Jesus já fez tudo por nós. Portanto, descansemos n’Ele pela fé.