quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Salvação e fé

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8-9)

A Bíblia é bem clara ao afirmar que nossa salvação é totalmente pela graça: “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3.23-24).

Nós só compreendemos corretamente essa verdade quando conhecemos qual a nossa condição e posição diante de Deus. Já nascemos “mortos em ofensas e pecados” (Efésios 2.1), cada um de nós é “servo do pecado” (João 8.34) e, por natureza, “... todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” (Isaías 64.6). Além dessa corrupção interior, todos nós nascemos debaixo da condenação do pecado, pois “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6.23). Em tal situação é impossível que o homem contribua, com o mínimo que seja, em sua salvação. Assim como um morto não pode fazer coisa alguma, um morto espiritual não pode fazer nenhum bem espiritual.

Por isso nossa salvação depende inteiramente de Deus, que por Sua maravilhosa graça, enviou Seu Filho ao mundo para viver e morrer em nosso lugar. E não apenas isto, é Ele quem nos ressuscita espiritualmente (Efésios 2.1) e nos traz a Cristo. Sem essa ação de Deus, operando o novo nascimento (João 3.3), ninguém viria a Cristo: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou o não trouxer”(João 6.44). Nem o arrependimento e a fé podem ser considerados como uma obra nossa da qual depende nossa salvação, pois a Bíblia ensina que até essas coisas são dons de Deus dados a nós: “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também a padecer por ele, ...” (Filipenses 1.29); “Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência, e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?” (Romanos 2.4). A fé não é a causa da nossa salvação, mas o instrumento pelo qual nos apropriamos dela. Além disso, como eu disse acima, a fé, juntamente com o arrependimento, é um dom de Deus.

Talvez você concorde com tudo o que eu disse até agora, mas afirme que se o cristão não permanecer na fé e não for obediente em sua vida cristã poderá perder a salvação. No entanto, ao contrário do que a maioria dos cristãos pensam, a salvação não pode ser perdida, justamente pelo fato de a salvação ser pela graça e não depender de obras! Isso é ensinado em toda a Bíblia e aqui citarei apenas algumas passagens. Jesus disse em João 6.47: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna”. Tudo aqui está no presente. Se alguém crê em Jesus com verdadeira fé, então ele já tem, no presente, a vida eterna. Jesus não disse que aquele que crê n’Ele terá a vida eterna, mas que já tem aqui e agora. Ora, se a vida que o cristão tem é eterna, é ilógico pensar que ela possa ter um fim ou que ele possa perdê-la, afinal, ela é eterna.

Ainda sobre isso, Jesus disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem. E dou-lhes a vida eterna, e elas nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai ” (João 10:27-29) . Jesus afirma que Suas ovelhas, que receberam a vida eterna, nunca hão de perecer, e ninguém (inclusive as próprias ovelhas, obviamente) poderá arrebatá-las e das mãos do Pai (e de Suas mãos, obviamente - João 10:30). Paulo também fala sobre isso em Filipenses 1:6: “Tendo por certo isto mesmo, de que aquele que em vós começou boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”.

Mas talvez a passagem mais forte sobre o assunto se inicie no capítulo 5 de Romanos, onde Paulo começa a argumentar sobre a certeza da salvação. Do versículo 6 ao 11 Paulo apresenta um argumento incrível a respeito disso. Do versículo 12 ao 21 Paulo faz um paralelo entre Adão e Cristo, e mostra que, assim como o pecado de Adão foi imputado a todos os seus descendentes resultando em condenação, assim também a justiça de Cristo é imputada a todos aqueles que creem, resultando em salvação. Isso acontece por causa de nossa união com Cristo; nós estamos n’Ele e, graças a essa união, nossos pecados foram imputados a Cristo, e a justiça d’Ele foi imputada a nós.

Depois de um parêntese nos capítulos 6 e 7, Paulo continua o tema da certeza da salvação no capítulo 8 da mesma epístola, e inicia o capítulo dizendo: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Ele continua o assunto e no versículo 30 afirma: “E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou”. Veja o que ele afirma: os mesmos que são justificados (todos os que creem) serão glorificados, isto é, terão seus corpos transformados quando Cristo voltar. Ele não disse que apenas alguns dos justificados serão glorificados, mas que todos os que são justificados serão glorificados. E para mostrar a certeza disso, ele até coloca a glorificação como um fato já consumado, utilizando o verbo no passado: “a estes também glorificou” (e não glorificará). Paulo encerra toda esta argumentação sobre a certeza da salvação com uma passagem muito conhecida, mas pouco compreendida:

“Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu ou, antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte todo o dia, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque eu estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:31-39) .

Paulo mostra na passagem acima que nossa salvação depende totalmente de Deus e do Seu amor por nós, que foi demonstrado na obra que Cristo realizou em favor dos Seus escolhidos. E esse amor é tão grande que absolutamente nada – nada mesmo, nem mesmo nós – pode nos separar dele! Em nenhum momento Paulo afirma que a salvação depende de nossas atitudes. O grande problema de muitos cristãos é achar que a salvação depende daquilo que fazem, e não daquilo que Deus fez em Cristo de uma vez por todas. Às vezes pensam e falam de tal forma que parecem crer que eles mesmos se salvam. No entanto, nossa salvação é, do começo ao fim, uma obra exclusiva de Deus, como Jesus, Paulo e todos os demais apóstolos demonstram várias vezes. “Do Senhor vem a salvação” (Jonas 2:9). "Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:9).

Somente quando compreendemos tudo isso é que entendemos o que significa ser salvo pela graça e podemos louvar a Deus juntamente com Paulo, humilhados e agradecidos diante do Trono da Graça: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:33-36) .

Se a salvação não depende em nada de nós, parece que podemos fazer o que quisermos e isso não fará diferença nenhuma. Será? Paulo responde a essa questão no capítulo 6 de Romanos, demonstrando que não é possível que aqueles que foram salvos continuem a viver no pecado, porque eles estão unidos com Cristo em Sua morte e ressurreição. Eles não apenas foram justificados, mas também regenerados. A velha natureza dos cristãos foi crucificada e agora eles têm uma nova. Não são mais servos do pecado, mas da justiça (Romanos 6:18). O prazer deles não é mais o pecado, mas a santidade. A obediência e as boas obras surgem agora naturalmente, frutos de um coração que foi transformado por Deus: “Pois somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Assim como uma árvore boa produz bons frutos, um verdadeiro cristão produz boas obras (Mateus 12:33).

Isso não significa que os que foram salvos não pecam mais, pois o próprio apóstolo João reconhece que isso ainda irá acontecer: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós [...] Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (I João 1:8,10). Então, nós podemos perder a nossa salvação, devido aos pecados que ainda cometemos? Não, e nessa mesma passagem João apresenta a solução: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça [...] Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; E, se, alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (I João 1:9; 2:1-2). O sacrifício de Cristo é suficiente para nos perdoar de todos os nossos pecados, passados, presentes e futuros. Além disso, Jesus ainda está diante do Pai, como nosso Advogado.

Mas e se não confessarmos os nossos pecados a Deus, seremos perdoados? Primeiramente, aquele que foi verdadeiramente salvo confessa seus pecados a Deus. Isto é natural para ele. No entanto, é óbvio que há muitos pecados que cometemos e não lembramos. E é possível que um salvo morra sem ter confessado seus últimos pecados. Em tais casos obviamente a pessoa é perdoada, porque o perdão não está alicerçado em sua confissão, mas na obra objetiva de Cristo em Sua vida e morte. Nossos pecados foram imputados sobre Cristo e Ele já levou a condenação por eles. Por outro lado, a justiça de Cristo é imputada a nós quando cremos, e graças a isso recebemos a vida eterna. Retomando o que já foi dito, “Portanto, agora nenhuma condenação...” (Romanos 8:1).

Se nossa salvação dependesse em algum momento de nossas obras todos estaríamos perdidos, pois mesmo as nossas melhores obras que praticamos como cristãos ainda são imperfeitas. Quantas vezes ajudamos o nosso próximo com o fim de cumprir o mandamento de Cristo de amarmos o nosso próximo como a nós mesmos, mas quando olhamos para dentro de nós encontramos uma raiz de interesse próprio? Quantas vezes nós, que somos ministros de louvor, fomos tomados de orgulho em meio à adoração, pelo fato de Deus nos usar como instrumentos para edificação da igreja? Sejamos sinceros, mesmo as nossas melhores obras não chegam aos pés do que é exigido pela lei de Deus: "Conforme ao mandado da lei que te ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda". Citando novamente o profeta Isaías: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia” (Isaías 64:6).

Resumindo tudo o que foi dito até agora, a salvação depende inteiramente de Deus e é totalmente pela Sua graça, sem nenhuma contribuição de nossa parte. A santificação não é a causa de nossa salvação, mas uma conseqüência. Só se santifica quem já foi salvo. E quem já foi salvo necessariamente se santifica. Por isso, todo aquele que foi salvo verá a Deus e pode ter certeza de sua salvação. Jesus já fez tudo por nós. Portanto, descansemos n’Ele pela fé.