domingo, 2 de agosto de 2015

O que é importante

"Eu sei, ó Senhor, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem o que caminha o dirigir os seus passos." (Jeremias 10:23)

Uma vez estava conversando com um amigo. Ele me contava que sua esposa e ele acabaram de ter um bebê. Enquanto conversávamos, chegou o pai do meu amigo e lhe disse que seu bebê parara de respirar e que fora levado para o hospital, com urgência. No mesmo instante, meu amigo entrou no carro de seu pai e se foi.

Por um momento fiquei onde estava, sem me mover, mas logo tratei de pensar no que deveria fazer: seguir meu amigo ao hospital? Minha presença, disse a mim mesmo, não serviria de nada, pois a criança certamente estaria sob cuidados de médicos e nada havia que eu pudesse fazer para mudar a situação.

Oferecer meu apoio moral? Talvez, mas tanto ele quanto sua esposa vinham de famílias numerosas e sem dúvida estariam rodeados de amigos e familiares que lhes ofereceriam apoio e conforto necessários, acontecesse o que acontecesse. A única coisa que eu faria indo até lá, era atrapalhar.

Decidi que mais tarde veria o meu amigo. Quando dei a partida no meu carro, percebi que o meu amigo havia deixado o seu carro aberto e com as chaves na ignição. Decidi, então, fechar o carro e ir até ao hospital para lhe entregar as chaves.

Como imaginei, a sala de espera estava repleta de familiares que os consolavam. Entrei sem fazer ruído e fiquei junto à porta pensando o que deveria fazer. Não demorou muito e surgiu um médico que se aproximou do casal e, em voz baixa, comunicou o falecimento do bebê.

Durante os instantes que ficaram abraçados - a mim pareceu uma eternidade - choravam, enquanto todos os demais ficaram ao redor daquele silêncio de dor. Ao me ver ali, aquela mãe me abraçou e começou a chorar. Também meu amigo se refugiou em meus braços e me disse: "Muito obrigado por estar aqui!".

Durante o resto da manhã fiquei no hospital, vendo meu amigo e sua esposa segurar nos braços seu bebê, despedindo-se dele. Isso foi o mais importante que já fiz na minha vida. Aquela experiência me deixou três lições.

Primeira lição - O mais importante que fiz na vida, ocorreu quando não havia absolutamente nada, nada que eu pudesse fazer. Nada daquilo que aprendi na universidade, no MBA, nos cursos de especialização no Exterior, nem todo o racional que utilizei para planejar, analisar, decidir, executar, serviram-me naquelas circunstâncias: duas pessoas receberam uma desgraça e eu nada poderia fazer para remediar. A única coisa que poderia fazer era esperar e acompanhá-los.

Segunda lição - Estou convencido que o mais importante que já fiz na minha vida esteve a ponto de não ocorrer, devido às coisas que aprendi, aos conceitos do racional que aplicava na minha vida pessoal assim como fazia na profissional. Ao aprender a pensar, quase me esqueci de sentir. Hoje, não tenho dúvida alguma de que deveria ter subido naquele carro sem vacilar e acompanhado meu amigo ao hospital.

Terceira lição - Aprendi que a vida pode mudar em um instante. Intelectualmente todos nós sabemos disso, mas acreditamos que os infortúnios acontecem somente com os outros. Assim, fazemos nossos planos e imaginamos nosso futuro como algo tão real como se não houvesse espaços para outras ocorrências. Mas ao acordarmos de manhã, esquecemos que podemos perder o emprego, sofrer uma doença ou cruzar com um motorista embriagado e outras mil coisas podem alterar nosso futuro num piscar de olhos.

Às vezes, para algumas pessoas, é necessário viver uma tragédia para recolocar as coisas em perspectiva. É muito importante que se busque um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal e familiar. Nenhum emprego, por mais importante e gratificante que seja, compensa perder férias, romper relacionamentos ou passar um dia festivo longe da família. Aprendi também que o mais importante da vida não é ganhar dinheiro, nem ascender socialmente, nem receber honras. O mais importante da vida está nas coisas simples do dia-a-dia e, principalmente, em perceber que o real sucesso transcende de longe o simples agir como profissional.

Por Washington Sorio