sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Vontade de Deus, acaso ou sorte?

E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. (Mateus 10:30) 

Baseado no tema "o que rege o mundo é a providência, não o acaso nem a sorte", João Calvino em sua obra As Institutas, discorre a res­peito do controle de Deus sobre todas as coisas no mundo.

Segundo ele, para que melhor se pa­tenteie esta diferença, deve-se ter em conta que a providência de Deus, como ensinada na Escri­tura, é o oposto de sorte e dos acontecimentos atribuídos ao acaso.

Ora, uma vez que, em todos os tempos, geralmente se deu a crer, e ainda hoje a mesma opinião domina a quase todos os mortais, a sa­ber, que tudo acontece por obra do acaso, aquilo que se deveria crer acerca da providência, certo é que não só é ofuscado por esta deturpada opi­nião, mas inclusive é quase sepultado em trevas.

Por exemplo, diz Calvino: "Se alguém cai nas garras de assaltantes, ou de animais fe­rozes; se do vento a surgir de repente sofre nau­frágio no mar: se é soterrado pela queda da casa ou de uma árvore; se outro, vagando por lugares desertos, encontra provisão para sua fome; ar­rastado pelas ondas, chega ao porto; escapa mi­lagrosamente à morte pela distância de apenas um dedo; todas essas ocorrências, tanto prós­peras, quanto adversas, a razão carnal as atribui à sorte. Contudo, todo aquele que foi ensinado pelos lábios de Cristo de que todos os cabelos da cabeça lhe estão contados (Mateus 10.30), buscará causa mais remota e terá por certo que todo e qualquer evento é governado pelo conselho se­creto de Deus".

Ele vai mais longe quando arrazoa a respeito das demais obras da criação: "quanto às coisas inanimadas, por certo assim se deve pen­sar: embora a cada uma, individualmente, lhe seja por natureza infundida sua propriedade es­pecífica, entretanto não exercem sua força senão até onde são dirigidas pela mão sempre presen­te de Deus. Portanto, nada mais são do que ins­trumentos aos quais Deus instila continuamente quanto quer de eficiência e inclina e dirige para esta ou aquela ação, conforme seu arbítrio".

Um dos maiores exemplos que pode­mos ter do poder criador e controlador de Deus é a força mais admirável ou mais destacada do sol. Pois, além de iluminar com seu fulgor a todo o mundo, nutre e vitaliza a todos os seres ani­mados; com seus raios enche de fecundidade a terra.

Mas o Senhor, o único digno de ado­ração, antes mesmo que houvesse criado o sol com todo o seu esplendor disse "haja luz", rei­vindicando para Ele e não para o sol, toda honra glória e poder.

Razão pela qual, Calvino relembra que "quando, além disso, lemos em duas ocasiões, que às preces de Josué o sol se deteve em um grau (Josué 10:13), e que, em atenção ao rei Eze­quias, sua sombra retrocedeu dez graus (2 Reis 20:11; Isaías 38:8), com estes poucos milagres Deus testificou que não é por cego instinto da nature­za que o sol nasce e se põe diariamente, mas por­que Ele próprio, para renovar a lembrança de seu paterno favor para conosco, governa seu curso".

Não é à toa que assim diz a Palavra: "e quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? --- diz o Santo. Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem conta­das, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar" (Isaías 40:25 e 26).

Por fim, que o Espírito Santo do nosso Deus ilumine nossas mentes e corações para en­tendermos que para aquele que crê não existe sorte ou acaso, mas sim um Deus que nos ama, esquadrinha e dirige todos os nossos caminhos.

Pela fé, "entrega o teu caminho ao Se­nhor, confia nele, e o mais ele fará" (Salmos 37:5).

Rev. Walter Mello
Texto retirado do Boletim da Igreja Presbiteriana Nacional em Brasília, Ed. 2187.