terça-feira, 1 de abril de 2014

O fenômeno da ostentação

Então direi a mim mesmo: ‘Homem feliz! Você tem tudo de bom que precisa para muitos anos. Agora descanse, coma, beba e alegre-se.’ (Lucas 12:19)

Certa vez Jesus chamou seus discípulos e contou-lhes a seguinte parábola: — As terras de um homem rico deram uma grande colheita. Então ele começou a pensar: “Eu não tenho lugar para guardar toda esta colheita. O que é que vou fazer? Ah! Já sei! — disse para si mesmo. — Vou derrubar os meus depósitos de cereais e construir outros maiores ainda. Neles guardarei todas as minhas colheitas junto com tudo o que tenho. Então direi a mim mesmo: ‘Homem feliz! Você tem tudo de bom que precisa para muitos anos. Agora descanse, coma, beba e alegre-se. Mas Deus lhe disse: “Seu tolo! Esta noite você vai morrer; aí quem ficará com tudo o que você guardou?”

Ainda hoje, a vontade de possuir continua tão forte quanto naquela época. Talvez até mais. Não só de possuir, mas de ostentar. Afinal, possuir é bom! Melhor ainda é poder mostrar aos outros o que se tem. É assim que muitos pensam e agem.

Um estudo publicado na revista Psicologia Hoje concluiu que as pessoas mais preocupadas com os bens têm menos probabilidade de se envolver em relacionamento afetivo satisfatório. Elas tendem a ser perturbadas por constantes ansiedades, preocupações, que acabam tornando-as cada vez mais solitárias. A ostentação tenta suprir a carência afetiva, pois as faz se sentirem atraentes e valorizadas. 

Na época de Jesus, o homem rico usou a tática de expandir a fazenda para mostrar a riqueza e dela se gabar. Hoje, muitas riquezas são virtuais, ou seja, elas nem existem de fato, só aparecem nas fotos. Quando existem, na maioria das vezes há dívida financeira por trás. Mesmo assim, a ostentação é forte, e para isso, as pessoas contam com a ajuda das redes sociais.

Segundo o psiquiatra americano Elias Aboujaoude, a internet ampliou predisposições humanas como o gosto por se gabar. Como diretor da Clínica de Transtorno Obsessivo Compulsivo da Escola de Medicina da Universidade Stanford, Aboujaoude concluiu que o mundo virtual libera uma parte da personalidade guiada apenas pelos desejos. Nele, os limites e as censuras perdem sua eficácia. “A internet pode, inconscientemente, mudar a personalidade das pessoas”, diz Aboujaoude, autor do livro Virtually you: the dangerous powers of the e-personality (Quase você: os perigos da e-personalidade, sem edição no Brasil). Essa mudança de personalidade, diz Aboujaoude, não fica confinada apenas ao mundo virtual. O estilo de interação usado no ciberespaço está passando para a vida real, na qual as pessoas se parecem com seus avatares.

Em outro estudo, dois pesquisadores da Universidade da Georgia pediram a 130 usuários do Facebook que respondessem a um questionário para avaliar tendências narcisistas, caracterizadas pela necessidade de suscitar admiração alheia e exagerar na percepção de sua própria importância, levando ao egocentrismo. Descobriram que as pessoas com maior tendência ao narcisismo eram as que mais publicavam conteúdo para se promover, com fotos em que aparecem atraentes, sensuais, e em momentos de felicidade. 

O estudo também concluiu que as redes sociais são uma fonte provocante de inveja. Da mesma forma que verdadeiras amizades podem ali nascer, a vaidade, a inveja e as dores de cotovelos levam pessoas a se sentirem cada vez mais solitárias e insignificantes. 

Pelo jeito, não está nada diferente do contexto da parábola. Isso é o que acontece com aqueles que juntam riquezas - reais ou virtuais - para si mesmos, mas para Deus são pobres e necessitados de Sua misericórdia. (Lucas 12:21).