segunda-feira, 17 de março de 2014

Algo pela Nação

Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra. (Colossenses 3:2)

Os jornais estão dizendo que no próximo sábado, 22/3, São Paulo, Rio e outras cerca de 200 cidades realizarão a ‘Marcha da Família com Deus’. Dizem que o ato será uma reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade que, em 19 de março de 1964, reuniu cerca de 200 mil pessoas em São Paulo. Sob o argumento da “ameaça comunista”, eles pediam a deposição do presidente João Goulart.

“A principal reivindicação é a uma intervenção militar, cujos objetivos seriam acabar com a corrupção, retirar do poder políticos considerados corruptos, remover a moralização dos três Poderes e, posteriormente, convocar novas eleições para a criação de um governo constituído apenas por ‘fichas limpas’”. (Folha de São Paulo)

Particularmente, não acredito que a solução para o nosso país seja um “novo golpe militar”. Provavelmente não deve ser essa a intenção da marcha. Embora concorde que devamos contribuir ativamente para a melhoria da sociedade, fazendo propagar os princípios divinos da moralidade, da ética e de justiça social, não sou a favor de que a Igreja participe de manifestações que não sejam pacíficas na sua integralidade. Não sei de fato quais são as intenções dos organizadores dessa marcha, mas o texto da convocação expressa causas similares com a marcha que antecedeu o golpe militar de 1964, que, poucas semanas depois, abriu o período ditatorial brasileiro.

É bem verdade que após conquistamos a tão sonhada democracia ainda mostramos alguma incapacidade de conviver com ela. Esta forma de governo pressupõe livre e espontâneo direito para votar, situação que não acontece num país onde o Estado é paternalista e milhões de eleitores dependem dele para sobreviver. Em países assim a democracia é ilusória, e serve apenas para mascarar a realidade da regra de elite. As instituições democráticas não fazem mais do que mudar o exercício do poder de opressão à manipulação. Uma solução emergencial para isso seria, por exemplo, extirpar o instituto da reeleição, evitando que governos de plantão abusem das carências do povo para se reelegerem. 

Infelizmente, para ser de fato um Estado democrático de direito, muita coisa ainda precisa mudar no Brasil. É nesse sentido que o cristão pode contribuir. Pensar nas coisas lá do alto não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se estudarmos a história, veremos que os cristãos não viam o anseio pelo mundo eterno como uma forma de escapismo ou de auto ilusão, mas trabalhavam por melhorias. “Os apóstolos, que desencadearam a conversão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que aboliram o tráfico de escravos – todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso. Foi quando os cristãos deixaram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes aqui.” (C. S. Lewis)

Portanto, nós podemos sim – e devemos – fazer algo em prol da nação. Se optarmos por não nos manifestar, saibamos que a oração é para nós uma grande e sublime obra. Isso é o mínimo que podemos fazer.